Imprensa
Estreia nacional de «Follow the Songlines»
9 de Julho de 2007, In O Primeiro de Janeiro
O canto cosmopolita de Maria João e David Linx, ora tribal ora urbano, e as notas inspiradas de Mário Laginha e Diederik Wissels, acompanhados pela Orquestra Nacional do Porto, encheram sábado à noite a praça da Casa da Música.
Intitulado “Follow the Songlines” e descrito pelo compositor e pianista Mário Laginha como “uma viagem musical”, este espectáculo, em estreia nacional, foi também o primeiro realizado ao ar livre na temporada de Verão daquele espaço cultural portuense.
A noite estava fria, mas o público manteve-se de pedra e cal nas bancadas que enquadravam a praça, enquanto os músicos atacavam com enlevo os 13 temas que Laginha e Wissels compuseram. O projecto, que teve estreia absoluta em Bruxelas, a 20 de Junho, nasceu de uma encomenda feita pela direcção da Orquestra Sinfónica VRO (Orquestra da Rádio Flamenga) ao cantor belga David Linx, que costuma apresentar-se em duo com o pianista e compositor Diederik Wissels e resolveu convidar a sua cantora preferida, Maria João, e o seu pareceiro habitual, Mário Laginha. O resultado foram 11 temas originais e “duas novas versões, com arranjos completamente diferentes, para orquestra” - sublinhou o compositor à Lusa - de “Parrots and Lions”, interpretado com emoção contida por Maria João, e “Chorinho Feliz”, que dá nome ao álbum de ambos editado em 2000.
A ideia inicial tinha como base o conceito de “Songlines”, as referências cantadas que, ao longo dos séculos, os aborígenes passaram oralmente de geração em geração e através das quais se orientavam, nas suas deslocações por atalhos invisíveis, nas regiões desérticas do continente australiano. A partir daí, estes músicos pensaram, primeiro, traçar um itinerário musical com base nos respectivos percursos, reais ou imaginados, e influências de diversas regiões do globo, mas acabou por não haver um tema por cidade ou país - “alguns não têm tanta geografia”, admitiu Laginha.
O que é certo é que as pessoas que acorreram à praça da Casa da Música para ouvi-los foram hipnotizadas durante perto de duas horas pelo “scat” poderoso de Maria João, secundado por David Linx, às vezes em diálogo, outras em conjunto, numa comunhão entre dois mundos, o da música clássica e o do jazz. Os pianistas foram trocando de lugar, consoante a composição era de um ou outro, e tocaram a quatro mãos, além de terem também improvisado.
Helge Norbakken e Christophe Wallemme, os dois músicos convidados, na percussão e no contrabaixo, respectivamente, também se fizeram notar, a par de uma Orquestra Nacional do Porto, com direcção de Dirk Brossé, empenhada e divertida com uma nova sonoridade, que extravasa o seu território natural, e com a interpretação magistral dos dois cantores.
Maria João exibiu o seu “scat” nacional e entusiasmou a plateia com um sotaque do nordeste brasileiro, em “Sete Facadas”, com letra da sua autoria, baseada numa história que lhes foi contada por um taxista de Salvador da Baía, contou Laginha. Ela cantou, sorriu, emocionou-se e contou histórias, encarnando personagens com mais expressividade do que muitas actrizes ditas profissionais, com voz, dicção, corpo e alma, numa entrega total.
David Linx, comunicativo, foi conquistando o público num crescendo, seguindo as passadas de Maria João, até à rendição final. Em “Cidade do México”, ambos transmitiram, com um “scat” enérgico e marcante, a ideia do ritmo acelerado de uma megametrópole superpovoada. “Sangre”, um tema composto por Diederik Wissels que “tem alguma coisa” de Espanha, como explicou à Lusa Mário Laginha, pareceu transparecer, na toada da intérprete, com letra em português, da sua autoria, uma espécie de cadência do fado. Depois, foi a vez de “Mati Mati”, o último tema antes do encore, iniciado com um “scat” dos dois vocalistas totalmente tribal, sugerindo quase uma dança da chuva, com invocação dos deuses. Em 2008, seguir-se-ão pelo menos mais dois concertos de “Follow the Songlines”, em Lyon e Paris, e - revelou Mário Laginha - “uma forte probabilidade” de gravação de um disco deste projecto, em Setembro do mesmo ano.
