Maria João

Imprensa

Tenho amor pela música brasileira

16 de Abril de 2007, in Jornal de Notícias
Entrevista de Cláudia Luís

Em 25 anos de carreira, Maria João cultivou o trabalho em parceria Mário Laginha é o cúmplice mais regular, mas nomes como Aki Takase, Carlos Bica ou Ralph Towner também colaboraram. Agora, lança "João", um disco só dela. Ou quase isso.

Chico Buarque, Caetano Veloso, Ary Barroso, Vinicius de Moraes, Marisa Monte e Carlinhos Brown são alguns dos compositores revisitados em "João". O disco chama-se assim, porque "é assim que as pessoas mais íntimas me tratam e porque, apesar de ter músicos maravilhosos, isto partiu de mim". Maria João tinha que fazer um disco baseado no cancioneiro da música popular brasileira. A escolha é pessoal e o resultado só podia ser personalizado. Quanta gente já cantou estes autores?

JN - Neste momento, há três novos discos de três mulheres em Portugal sobre MPB. Que coincidência é esta?
Maria João - Só posso falar dos meus motivos, mas o motivo principal é, com certeza, o amor pela música. Agora a coincidência, não sei… Oxalá corra bem em termos de venda de discos e que não seja uma grande porcaria três discos à venda ao mesmo tempo com uma temática semelhante.

Como nasceu o seu projecto?
Algures em todos os discos há quase sempre uma música e tinha este desejo de fazer um disco todo com música do Brasil. No ano passado a coisa tornou-se possível. Uma coisa juntou-se à outra a vontade da Universal e o meu próprio amor por esta música.

Por que seleccionou estes autores e estes temas?
Foi uma escolha muito suada. Sofri para escolher estes e não outros. Não posso dizer que estas são as canções da minha vida brasileira. São algumas. Seria impossível fazê-las todas. O cancioneiro brasileiro é tão rico, feliz e ensolarado. É um 'songbook' incrível.

As versões são uma forma de homenagem a temas/autores de quem se gosta muito ou uma forma de dizer que esses temas transformados podem ser melhores?
Ah, não, não tenho nada essa ambição de fazer temas melhores. O que quero é que sejam diferentes, que eu lhes traga qualquer coisa. As canções já são tão bonitas, já foram gravadas tantas vezes por gente tão incrível, cantores e cantoras que são os meus ídolos - os meus heróis e as minhas heroínas, ídolos não, não gosto desse nome -, que gostaria que trouxesse algo de novo. Uma coisinha aqui, uma coisinha ali. Agora, melhor, seria uma arrogância enorme da minha parte. Acho que ficaram diferentes e em quase todas conseguimos isso, o que já é um feito, tendo em conta a música que é. Conseguimos aquilo a que nos propusemos tornar as músicas pessoais.

Por que motivo a MPB tem uma capacidade sedutora mesmo para quem não partilha nada dessa cultura?
É a música mais fácil de ouvir, porque tem uma componente de felicidade. Mesmo que eles estejam a contar um grande drama e que estejam a interpretá-lo dessa forma, há sempre, algures, uma centelha positiva. Ao contrário de nós, que dramatizamos logo qualquer coisa 'ai meu deus!' e uma facada no peito. E depois tem muito balanço, é muito dançável. É a música mais fácil de escutar do Mundo. Não de fazer. De ouvir - imediatamente uma pessoa fica presa, grudada.

Há uma sensação imediata na sua música de espírito criativo, atmosfera positiva, solta e feliz. Além de uma postura artística, isso é um princípio de vida?
É, é, é. Aquilo que fazemos acaba por reflectir a forma como nós somos. Não consigo ser sempre feliz (não acredito que ninguém consiga), mas a minha intenção é sempre essa. Não sou pessoa de grandes depressões, vou para a frente. É preciso fazer isto? Então vamos. A minha música reflecte essa minha maneira de ser. Ainda bem que se nota, sabes? Fico muito feliz.