Maria João

Imprensa

O sotaque de «João»

15 de Abril de 2007, In O Primeiro de Janeiro, Suplemento Sete
Entrevista de Pedro Vasco Oliveira

Vai amanhã para os escaparates o novo álbum de Maria João, intitulado simplesmente «João», uma viagem pelo cancioneiro popular brasileiro, um universo que muito diz à cantora e, como a própria afirma, muito ama. Em 14 temas, João, como é tratada pelos amigos, empresta o seu toque pessoal a temas já muito tocados e interpretados, num desafio que considera ter sido… “um risco”

Ao 15.º álbum, Maria João mergulha no universo do cancioneiro popular brasileiro, reinterpretando temas bem conhecidos, alvo de variadas versões e interpretações. O “amor” que sente por estes temas levou-a a assumir este desafio em nome próprio, daí ter intitulado o álbum de «João».
Maria João empresta a sua voz maviosa e única a 14 temas, nos quais Chico Buarque é o mais representado, num lote em que o mais difícil foi fazer a escolha final.
Mário Delgado (guitarra), Alexandre Frazão (bateria), Eleonor Picas (harpa) e Yuri Daniel (contrabaixo) são os músicos que acompanham a cantora nesta aventura por terras de Vera Cruz, tendo contado com Miguel Ferreira (teclista dos Clã) na coordenação dos arranjos colectivos, que ainda co-assina a produção com Nélson Carvalho.
Em conversa com o SE7E, Maria João explicou o porquê de «João».

Porquê o cancioneiro popular do Brasil como universo deste novo disco?
É uma vontade que tinha há alguns anos, fazer um disco com este som maravilhoso, que é muito feliz e muito ensolarado. Eles têm uma música fora de série e têm muita gente a fazer boa música, muito feliz. Depois, como sempre tive, ao longo dos anos, músicas nos meus discos com qualquer coisa brasileira, até numa altura em que era piroso fazê-lo… Só quem tocava nos bares é que fazia música brasileira com sotaque… Mas sempre achei que soava bem e que devia ser daquela maneira e não de outra. Coisa que não acontece agora, porque mudei um bocadinho… Tinha esta ideia, a editora também achou que era a altura de fazer este disco sozinha, desta maneira e com este repertório, então juntou-se a fome à vontade de comer.

E qual a principal busca para conseguir este disco?
As canções que gostava… E são muitas! Acabei por ficar com um lote que não havia maneira de reduzir, eram quarenta e tal imprescindíveis… Estas representam algumas das músicas que muito amo no repertório brasileiro. Não são todas, não são as mais importantes, porque essas são para aí umas 50. São algumas das mais importantes…

E como retrata a alma deste álbum?
É a João e os músicos a transformarem a música à nossa maneira, dando-lhe um cunho pessoal, tentando acrescentar-lhe qualquer coisa. É essa a razão principal porque faço música. Tentar mudar a música um pouquinho e tentar mudar-me também com a música… É um disco, de certa forma, igual aos outros, porque é o que faço sempre com a música.

Esse foi o maior risco deste disco, pois anteriormente disse que este era “um desafio arriscado”?
Então não é, cantar músicas de outras pessoas? E que outras pessoas já o fizeram tão bem, claro que é um risco enorme. É o risco de não podermos fazer nada de diferente; é o risco de aquilo que fazemos de diferente não ficar bem, ou não ser significativo, ou ficar muito pior; é o risco de não nos conseguirmos libertar dos compositores, dos autores e dos cantores que o fizeram e foram a razão pela qual eu me apaixonei pelas músicas… Claro que foi um risco, foi um risco muito grande.

O título do álbum, «João», é também a forma de lhe dar um cunho mais pessoal e intimista?
Sim e é o meu nome também, é pelo nome que os meus amigos me conhecem… Também sempre tive discos em parceria, com o Mário Laginha, ou com a Aki Takase, antes dele… Sempre foram discos de parcerias, porque também gosto das parcerias e, de repente, fiquei sozinha e nada melhor do que chamar ao álbum «João»… Sozinha, é como quem diz, porque tenho músicos maravilhosos comigo, amigos meus, músicos que são um luxo. Achei que era agora ou nunca de lhe chamar «João».

A escolha dos temas foi por uma questão de amor, mas mais Chico Buarque por alguma razão especial?
Não se consegue passar por cima dele. Não se consegue e não estão todas as que queria pôr. Ele é maravilhoso. A parceria dele com o Edu Lobo é das mais conseguidas da música toda… Há parcerias abençoadas por Deus e felizes por natureza, que não acontecem com muita frequência, mas que de vez em quando acontecem. Então, não pôr qualquer coisa do Chico era impensável, porque ele é o maior poeta de canções.

Olhando um pouco para trás, que pontos de contacto, se é que os há, existem entre este álbum e o «Chorinho Feliz»?
Ainda bem que falaste dele, porque gosto tanto do «Chorinho Feliz» e acabou por vir embrulhado com o ao vivo [«Mumadji»] que saiu a seguir e que poderia ter dado muito pano para mangas… É um disco brasileiro também… Foi a forma de eu e o Mário Laginha comemorarmos os Descobrimentos Portugueses. Foi uma encomenda da Comissão Nacional para os Descobrimentos Portugueses… É um disco brasileiro também, mas com temas originais.

Mas há mais pontos de contacto, para além do Brasil?
Acho que os únicos pontos de contacto são o Brasil e a João…

Se lhe pedisse para me definir este disco como seria?
Não consigo definir… Faço a música muito intuitivamente, sempre com muito afecto e amor pela música e por esta em particular e não sei como chamar ao resultado. Mas foi feito com muito trabalho, todo o amor do Mundo e respeito por esta música… Mas não sei definir.

E como tem sido a receptividade do público na apresentação ao vivo?
O concerto foi incrível, foi uma hora e quarenta e cinco minutos que passou a correr. Foi o concerto mais rápido que fiz, que me pareceu, claro. Quando dei por ela já estava no fim… No primeiro concerto nunca há tempo para muitos ensaios e aquilo até voou. As pessoas ficaram em pé no final do concerto e vieram dar-me e aos músicos muitos beijinhos, palmadas e abraços, pelo que devem ter gostado muito…

Isso é o melhor que um músico pode receber, o afecto do público?
É, sem dúvida, o melhor…

E os próximos concertos, como vão ser?
Isto vai mudando, o primeiro concerto já não foi igual ao disco. As canções já estavam um bocadinho diferentes, mais espaçosas, com alguma, mas pouca improvisação… Os concertos, à medida que vão acontecendo, vão sendo um pouquinho diferentes, porque a música não é imóvel, vai andando.