Maria João

Imprensa

Nova etapa de uma carreira inesperada

15 de Abril de 2007, in Diário de Notícias
Entrevista de Davide Pinheiro

Se hoje ainda reconhecemos Maria João com uma cantora intimamente ligada ao jazz, com um sentido de liberdade que lhe permite visitar outros territórios musicais, é surpreendente saber que até aos 27 anos a sua relação com a música "era nula". Aí e após ter ficado sem um emprego que tinha numa piscina, um vizinho sugeriu que cantasse. "Cantar?", perguntou a si mesma, como que surpreendida pela sugestão. Esse viria a ser o primeiro passo numa carreira com grande mediatismo.

Antiga praticante de aikido, apresentou-se para uma audição no Hot Clube de Jazz e, apesar de sua inexperiência, foi aprovada. Aí, "deram-lhe oportunidade de crescer", confessa. Ouviu "músicos e músicas" e adaptou as audições à sua "maneira de ser".

Apesar de atribuir o seu sucesso ao "esforço e ao trabalho", parte do seu protagonismo vem da televisão. No final dos anos 80, apresentou o programa Clube de Jazz, de Luís Villas-Boas, onde conheceu "uma série de músicos", entre os quais Carlos Bica, já com residência estabelecida na Alemanha, que a incitou a procurar fortuna por terras germânicas. Assim foi, e as coisas correram tão bem que Maria João acabou por conseguir arranjar editora e agente. Foi aliás na RDA que realizou uma bem sucedida digressão. Mas é importante não esquecer que foi uma actuação no Festival de Jazz de Cascais que lhe valeu o primeiro grande aplauso da crítica.

Mas voltemos aos ecrãs. Em 2003, Maria João foi uma das professoras de canto do concurso televisivo Operação Triunfo. "Era um programa que tinha a ver comigo no sentido em que a música era o objecto principal", diz. "Senti que estava a ajudar pessoas a concretizarem os seus sonhos e eu fazia parte deles", confessa com respeito por todos aqueles que viram naquele espaço uma via para obter sucesso num mundo tão competitivo quanto o da música.

Em Maria João há uma apetência pop cada vez maior mas ainda é o jazz que ainda ilumina o seu caminho. "Eu considero-me uma cantora mas se for preciso categorizar-me é ao jazz que eu pertenço porque grande parte da minha carreira esteve e está ligada a essa área".

Anteontem o jazz, ontem a pop e hoje o Brasil. João, o novo disco, surgiu pela "necessidade de gravar a solo". A viagem ao outro lado do Atlântico explica-se pelo facto de considerar que "era a altura de gravar um disco com um songbook brasileiro que é tão rico e ensolarado". Juntou-se o útil ao agradável "e a editora não só concordou como me empurrou para esta gravação".

Quando aos restantes registos que entretanto surgiram, tendo como ponto de partida o Brasil, Maria João lembra-se de ter conversado "com Teresa Salgueiro sobre o assunto" mas não consegue ainda "encontrar uma explicação" para este súbito interesse editorial. " Só sei que é música fresca e com muita luz", conclui Maria João.