Maria João

Imprensa

Adoro correr riscos e tentar emendar as coisas

14 de Abril de 2007, in Correio da Manhã
Entrevista de Luís F. Silva

Com meio século de vida cumprido e um trajecto singular na música, Maria João tem álbum novo, desta feita em nome próprio, cortando uma frutuosa relação de 12 anos e oito discos com o pianista Mário Laginha. Não é de admirar. Aquela que é uma das mais originais cantoras de jazz nacionais gosta da mudança.

Numa entrevista de vida, fala da infância rebelde em colégio que detestava, do amor ao filho que a prende ao País e até do primeiro beijo, dado a Miguel Esteves Cardoso. Pelo meio, retrato de uma mulher artisticamente inconformada que ama os animais, o sol e a natureza. E que, contas feitas, diz não ser rebuscada e sentir-se “feliz com as coisas simples”.

Correio Êxito – Este disco, ‘João’, é o primeiro sem o Mário Laginha. É o início de uma nova etapa?
Maria João – Sim, apesar de continuar a fazer música com o Mário. Continuamos a ter um duo, mas isto é uma mudança. É a primeira vez que faço um projecto meu, sem parcerias. Mas é um passo, sim, que não sei bem se é para a frente, para o lado ou para trás. É uma outra etapa. E está a fazer-me muito bem.

Este é também um disco sem piano. Porquê? Ficou farta?
Não. Foi uma opção. Fiz oito discos com piano e agora tive vontade de fazer um com outros instrumentos, guitarra, harpa... Não é por não gostar do piano. Este disco tem outro tipo de sonoridade.

E porquê a opção pela música brasileira?
Este é um disco de standards e ao contrário do que muita gente pensa, os standards não são só americanos. E os brasileiros são maravilhosos, os meus preferidos, e há muito por onde escolher. E eu pensei de mim para mim: se calhar conseguia fazer qualquer coisa diferente, que é a minha razão de ser enquanto músico, enquanto cantora. Tornar as músicas a minha cara, tentar dar-lhes o meu cunho pessoal. E há muito tempo que tinha este amor pela música brasileira. Penso que foi o passo certo, só eu, a João, sem parcerias.

O que não deixa de ser um voltar ao modo como começou, a interpretar standards...
Exactamente, mas isto é um continuar. Não parei nada. É um continuar, uma vírgula... e continuo a falar de outras coisas, mas a frase permanece a mesma. E há muito tempo que não os fazia.

Quando é que sentiu o apelo para ser cantora? É verdade que a música nunca esteve nos seus planos?
É verdade. Nunca fez parte dos meus sonhos. Imagino que cantarolasse, na praia. Naquela altura íamos para lá com umas guitarras, havia sempre quem cantasse qualquer coisa, à volta da fogueira, mas não me lembro de mais. Sabia para aí uma, duas músicas de cor, que era ‘O Embuçado’ – e não era inteira – e uma da Joan Baez, ‘El Preso Numero Nueve’. Não sabia mais nada.

E como aconteceu, então? Como chegou à música?
Tinha dado aulas de natação e fazia Aikido, na escola de Ten-Chi do Mestre Stobbaerts (então em Cascais), e a piscina onde dava aulas fechou, fiquei desempregada e alguém me sugeriu: ‘Por que não cantas?’ E foi assim: ‘Tá bem. Não tenho nada para fazer’. Na altura o meu pai andava a pressionar-me para me inscrever na TAP, como hospedeira, porque ele era piloto.

Que idade tinha na altura?
Vinte e seis anos. E de repente caiu-me no colo esta possibilidade de cantar. E descobri por acaso que podia cantar. A minha primeira lembrança aconteceu quando estava ainda a tirar o curso de nadador-salvador – fui das primeiras mulheres a tirá-lo – e havia uma amiga minha (Cândida) que cantava ópera no coro do S. Carlos. Uma vez estávamos no balneário e ela cantava, cantava, alto e bom som. E comecei a cantar com ela. E não é que conseguia cantar mais alto do que ela? Era a minha bitola: ‘Eu canto mais alto do que ela’. Lembro-me de ela ter dito: ‘Uhau! Devias tentar cantar’. Lembro-me bem dessa surpresa.

Antes da música, porém, teve uma adolescência complicada e foi expulsa de colégios...
A minha adolescência foi bastante infernal. Tinha um excesso de energia e estava muito encantada com os rapazes. Ter namorados, os amigos, amigas, festas... Tudo isso me encantava. E não queria estar fechada na escola. Três das cinco vezes que fui expulsa foram de colégios internos. Não queria estar fechada na escola e então estava sempre a fazer coisas para sair.

Eram problemas de relacionamento com os colegas?
Com os colegas não. Era com a escola. Aliás, era uma sensação muito contraditória. Por um lado, não queria estar ali, mas sempre que me ia embora era uma facada no coração, porque me tinha de separar das minhas amigas. Era uma dor, mas ao mesmo tempo um grito de liberdade: ‘VOU-ME EMBORA’. Essa história de ser expulsa não era uma coisa feliz, mas eu não queria mesmo estar ali.

A propósito da descoberta dos rapazes. Lembra-se do seu primeiro beijo?
Lembro. Foi ao Miguel Esteves Cardoso, num bailareco, quando estava no colégio inglês St. Julian’s, em Carcavelos. Foi a primeira pessoa a quem dei um beijo ou de quem recebi um beijo, mas não teve significado nenhum. Ele era mais velho do que eu, estava noutro ano e toda a gente falava dele, e no meio do baile ele espeta-me um beijo na boca, que teve direito a tudo o que um beijo tem direito (risos).

Alguma vez o lembrou disso?
Sim, há uns anos encontrei-o e disse-lhe: ‘Tu não te lembras, de certeza, mas deste-me o meu primeiro beijo’. E ele disse-me: ‘Lembro, lembro’... Uhau! (risos). Quer dizer, nem gostava dele nem nada, mas ele era ‘O Miguel’...

Que idade tinha?
Era miúda. Para aí 12... [risos]

Primeiro foi a natação, depois as artes marciais, onde chegou a cinturão negro de Aikido. O desporto é uma paixão ou uma disciplina?
Fui muito habituada a mexer-me, estava sempre a fazer coisas e a determinada altura a minha mãe, já muito desesperada, achou que me deveria ‘acalmar’. Alguma coisa que me consumisse a energia de uma maneira boa. Foi a melhor coisa que ela fez. Naquela altura (adolescência) eu estava calhada para o disparate. Queria tudo, ir para todo o lado, experimentar tudo. Era infernal, tenho essa noção. De maneira que ela me pôs na escola de Budokan de Portugal, em Cascais, e foi a melhor coisa que ela fez. Salvou-me a vida, acho eu. Apesar de sempre ter tido a certeza de que eu era uma boa pessoa. Era rebelde, apenas. Quando eu digo que ela me salvou é porque me orientou para coisas boas e saudáveis. E foi muito bom.

Antes do Aikido ainda passou pelo Yoga, mas saiu. Porquê? Era muito parado?
É [risos]. Era um bocadinho, sim, mas depois passei ainda pelo judo e karaté e só depois fui para o Aikido, que foi uma paixão assolapada. Acho que é a arte indicada para mim. É feminino e masculino, um pouco como o meu nome, Maria João. É uma arte fantástica, muito harmoniosa, connosco e com o Mundo.

E continua a praticar Aikido?
Sim. Sou praticante até morrer, só que não pratico com muita frequência, porque não tenho tempo e tenho de estar com o meu filho, o João, que se tornou nadador de competição.

Que idade tem ele?
Dezassete.

Há uns anos lamentava não poder estar mais próxima dele, por causa das digressões. Isso mudou?
Sempre estive próxima dele, porque com o tipo de profissão que tenho preciso de ter absoluta confiança no meu filho. Muitas vezes vou para fora, trabalhar, e ele fica sozinho. Não tem o pai lá. Mas sempre foi um filho maravilhoso. Nunca se queixou, nunca. Expliquei-lhe tudo: ‘A mãe tem de se ausentar porque esta é a forma que a mãe tem de nos sustentar..., etc’...

Abdicou de alguma coisa por ele?
Abdiquei um bocadinho de uma carreira internacional maior, porque não podia passar meses fora de casa e isso eu não quero fazer. Portanto, escolhi fazer uma carreira mediana, fora de portas. Mediana não é o termo: tenho uma boa carreira, mas não vou tantas vezes quantas seria possível. E não tenho pena. Foi uma escolha minha. Gosto tanto dele. Não há nada maior do que este amor que eu tenho por ele. Está bem assim, desde que possa ir lá fora de vez em quando, e vou todos os anos, mas passar dois meses fora está fora de questão.

No início de carreira confessou que não sabia ler música, partitura. Hoje já sabe?
Não. Continuo sem saber. Há vários caminhos para aprender música, ou se lê ou se escuta, e eu desenvolvi uma grande orelha (risos) e decoro as coisas com muita facilidade. Aprendo com facilidade e rapidez. E ao ir por aí... Foi tudo muito depressa. A aprendizagem para mim foi sempre no palco, sempre! E isso acabou por me tirar o tempo, essa aprendizagem mais académica, digamos.

O palco parece ser onde se ‘liberta’. Há sempre o risco de nunca sabermos o que a Maria João pode fazer. Acontece-lhe sentir o mesmo?
Completamente. Nem eu sei o que posso fazer. É uma sensação de plenitude. Adoro correr riscos e tentar emendar as coisas. É a aventura que tenho dentro de mim. É uma sensação incrível, adrenalina pura. E o risco. Comigo as coisas nunca estão muito bem ensaiadas. É sempre um pouco entre a espada e a parede, tenho de me desenrascar, de improvisar.

E desenrasca-se muito bem...
É, faz parte da minha personalidade (risos). Tenho-me desenrascado a vida toda. Utilizo a voz de outra maneira, tento dar outras cores à música. Às vezes também fico surpreendida nos concertos. Comigo e com os outros músicos.

A que disciplina se auto-impõe por ser cantora? Nada todos os dias, dorme muito...?
Faço muito desporto. Dormir nem tanto, porque não tenho muito tempo, de maneira que, além do desporto, tento comer saudavelmente. É uma escolha natural. Não bebo, não tomo drogas de qualquer espécie, nem nunca gostei. Essa parte correu-me bem.

Nem naqueles fins de tarde na praia?
Experimentei como é evidente. Também fumei os meus ‘cigarrinhos’, uns charros – meus não, eram sempre dos outros –, mas nunca foi coisa que me desse muita pica. O meu pico já era natural.

A sua primeira digressão internacional foi em 1986, então já com três anos de carreira. Que memórias guarda?
Foram 24 concertos num mês. Perdi seis quilos. Ou se fazia ou não se fazia. Aliás, um músico que foi comigo, português, não se aguentou à bronca. Voltou a Portugal e já não foi de novo. Aquilo foi muito duro. Era em clubes pequenos, mas valeu muito a pena. Fazíamos centenas de quilómetros no mesmo dia e depois tocávamos. Foi o caminho da humildade. Tem pouca glória e muito trabalho. A glória é nos concertos.

E os cachets valiam o esforço?
Eram muito pequenos: dez contos por noite. Lembro-me de ter comprado uma camisola em Berlim que me custou três concertos [risos]. Era assim que fazia as contas.

O convite para trabalhar com o Mário Laginha partiu de si, é verdade?
Sim. Das duas vezes que trabalhámos juntos. A primeira vez, estava ainda no início, foi através do Tó Serra (baixista), que me disse que eu devia conhecer um tipo bestial, pianista, que era fantástico. Ele apresentou-mo mas eu não percebia nada daquilo. Mas ele era mesmo fantástico. Depois separámo-nos e mais tarde (’94) voltei a convidá-lo.

A partir daí, sim, a parceria resultou...
Depois sim, foi à séria. Da segunda vez.

E como foi a relação da Maria João, hiperactiva, com o Mário Laginha, tranquilo? Não entravam muitas vezes em conflito?
Constantemente. Mas durante estes anos todos que durou, foi muito enriquecedor. Nós éramos tão opostos, não em termos de gostos ou actividades, ou música, mas os nossos feitios eram muito diferentes, que eu achei que dava uma boa fricção. Durante bastantes anos correu muito bem.

Não foi, portanto, apenas uma relação profissional?
Não. Depois fomos namorados, apaixonámo-nos e estivemos juntos oito anos. Complementávamo--nos.

E como é Maria João fora da música? Que outras paixões tem? Os cavalos?
Oh, isso já foi. Era um hóby muito dispendioso. Foi um curto espaço de tempo (finais dos anos 90) em que sonhei que pudia ter um cavalo ou dois – e acabei por ter, duas éguas, mãe e filha –, mas é um desporto ao qual nos temos de dedicar a cem por cento... e muito caro. E eu sou só artista, não sou rica. Só artista. Mas adoro animais. Agora tenho quatro cães.

E outras paixões?
O cinema, o desporto, a praia e o Verão. Passo o ano todo à espera do Verão. E estar com o meu filho. Estar bem! Não sou muito rebuscada. São as coisas simples que me deixam feliz. Coisas saudáveis, desporto, ver um filme, tomar um belo banho ao fim do dia e transpirar a fazer isto ou aquilo, poder cantar, fazer concertos... estar com a família.

"QUERO MUTO TOCAR NO BRASIL"

Além deste disco e do duo com Mário Laginha, que outros projectos tem?
Tenho um com o David Linx, um cantor de jazz, belga, que nos convidou, a mim e ao Laginha, para um projecto chamado ‘Follow the Standlines’, com dois cantores e dois pianistas – o Laginha e o Diederik Wissels. Vamos fazer um concerto em Bruxelas, em Junho, e depois cá na Casa da Música.

E o Brasil?
Quero muito tocar no Brasil. Gostava de lhes poder apresentar estas músicas desta maneira.

"FÃ ITALIANO SEGUE-ME PARA TODO O LADO"

À semelhança dos artistas pop-rock, a Maria João, que possui o rótulo do jazz, tem um clube de fãs activo. Como é a sua relação com eles?
Não é incrível? É uma maravilha. Não conheço ninguém na minha área que tenha um clube de fãs. E acontece que essas pessoas, as principais, não são apenas fãs. Considero-os meus amigos. Foram eles que me ajudaram a seleccionar o repertório deste disco. Foi a Catarina que me deu montes de discos de música brasileira para eu ouvir e me aconselhou. É incrível. E foram eles que criaram o meu site. É tão bom

E acompanham-na em digressão?
Sempre não, mas muitas vezes lá estão.

Mesmo no estrangeiro?
Os quatro principais não. Que eu me lembre não, mas tenho outros membros do clube que vão. Há um, que é italiano, o Archangelo, que vai para todo o lado. Diz que vai escrever um livro intitulado ‘Viajando com Maria João’ (‘Travelling With Maria João’). E vai para todo o lado. De repente, estou eu na Áustria e lá está ele, estou em França e lá está ele...”

"NÃO TENHO UMA ALMA DE FADISTA"

Falou no fado e sabia a letra de ‘O Embuçado’ de cor. Nunca pensou em fazer um disco só de fados?
Não. Só se fosse uma coisa mais arrevesada. Por acaso já tive uma ideia assim e falei até com o Mário Delgado. Mas não seria assim fado. Não tenho uma alma de fadista. A minha alma é de outras cores, muitas cores, muito ritmo. Preciso de liberdade para improvisar. Mas curiosamente, agora, nos concertos faço isso. Lá pelo meio de uma música, consegui meter à força, à revelia de toda a gente, uma coisa completamente improvisada, que é um fado da Maria Teresa de Noronha – (‘Por que será que não canto como canta a cotovia’), canta.

Moldou-o, portanto, ao seu modo?
É! Tem de ser à minha maneira.

Mas há quem a acuse de exagerar muitas vezes, de fazer acrobacias com a voz. O que lhes diz?
Mas é o que vem. Nunca é nada planeado. Tenho isto tudo aqui dentro (bate no peito) e então quero mostrar tudo, dizer tudo, fazer tudo. Não é deliberado, não é para mostrar às pessoas como sou... virtuosa. É o que sai... é o que vem”.

"FOTOS EM BARDA NA BAGAGEM"

Quando vai em digressão, do que não abdica?
Levo sempre duas malas cheias de roupa e outras coisas. As malas acabam por ser a minha casa. Tenho de sentir que tenho ali a minha casa. Levo as roupas que vou usar, as outras que talvez vá usar e tenho de levar sempre fotos em barda, do João, dos cães, da casa, do carro, do namorado... Depois, levo também o meu microfone, umas pastilhas alemãs para a garganta (só para a manter húmida), o Vick Vapospray (passe a publicidade) para o nariz... e o que levo mais???

E o fato de banho para nadar?
Claro... o fato de banho, a touca e os óculos. Sou muito disciplinada nisso. Nado sempre que posso. De manhã, nos intervalos... sempre que posso. Mas os hotéis hoje têm sempre piscina.

PERFIL

Maria João Monteiro Grancha nasceu em Lisboa a 27 de Junho de 1956, filha de pai português e mãe moçambicana. Teve uma infância feliz, mas a adolescência revelou uma jovem rebelde sempre disposta a abraçar a novidade. Dedicou-se ao desporto, primeiro à natação depois às artes marciais.

Aos 26 anos descobriu a música, ficando uma intérprete de excepção. O jazz é o seu território de eleição e além de discos em nome próprio já colaborou com vários nomes internacionais, caso da japonesa Aki Takase, e percorreu o Mundo em concertos.

Ao fim de uma relação de 12 anos e oito discos com o pianista Mário Laginha, Maria João aventura-se num outro projecto em nome próprio.