Imprensa
Estava no sítio certo na altura certa
07 de Abril de 2007, in Expresso
Entrevista de Ana Soromenho
Fotografias de António Pedro Ferreira
Correu o mundo a cantar, profissão que lhe aconteceu tardiamente e por acaso. Viagem ao universo de Maria João, 50 anos, que no próximo dia 9 apresenta «João». Depois de um longo «affair» musical, um disco a solo. Sem o piano nem a companhia de Mário Laginha
Aparece de casaco vermelho num restaurante do Guincho, num dia de Sol esplendoroso e mar brando. Escolheu aquele lugar por ser perto de casa e porque é para onde prefere ir quando lhe sobra tempo. O tempo é um quebra-cabeças na vida de Maria João. Os atrasos, os inevitáveis atrasos da cantora, são um dos traços marcantes na sua personalidade e quem com ela priva sabe disso muito bem. Quase sempre tão mencionados como o talento para o palco e o dom da voz, descoberta tardia na vida de Maria João Monteiro Grancha, que a faz correr mundo já lá vão quase vinte e cinco anos. A cantora é um bicho de palco, como dizia a propósito dela Mário Laginha. Mas desta vez o pianista estará ausente porque Maria João se balançou para um trabalho a solo. Precisamente por isso chamou-lhe «João».

Depois de 12 anos sempre em duo com Mário Laginha, lança agora um disco só seu de «standards» brasileiros. Música brasileira é uma tentação arriscada?
Bastante. Precisamente por ter a sonoridade mais fácil do mundo. Mas este não é o que se esperaria de um disco de música brasileira. Por exemplo, não faço isto (imita o som típico de um ritmo de samba). Não é música para balançar o corpo. Nesse sentido, é inesperado. Quando parto para um trabalho, a minha motivação é poder acrescentar qualquer coisa pessoal à música que já foi interpretada por outros. Mesmo que quisesse fazer uma coisa igual não saberia. E fugi da tentação de cantar com o sotaque brasileiro.
Costuma dizer que ser cantora é como ser atleta de alta competição.
Exactamente. Normalmente faço três concertos, uma pausa, três concertos, nova pausa. Sempre que tentei fazer mais do que isto, caí para o lado. Cuido muito do meu instrumento. É o único que tenho.
Uma boa voz é uma coisa inata?
Pois… é muito subjectivo. Voltando à imagem do atleta: uma pessoa pode ou não correr. Eu tenho a sorte de ter um instrumento muito elástico e que ganha muitas cores quando começo a cantar. E como não tenho vergonha nenhuma, quando estou em palco faço tudo e mais alguma coisa. (Gargalhada)
Nunca estudou canto.
Tudo o que aprendi foi no palco. Quando comecei a cantar, aprendi a escutar com muita atenção as necessidades do meu corpo. Já tinha um trabalho grande feito nessa matéria porque fui nadadora e fiz aikido durante anos. Sabia respirar bem e tinha uma boa postura. Estas são as ferramentas essenciais para cantar. A ligação ao desporto foi a escola que me deu as bases para fazer o que queria no canto.
Outra característica sua é a força e confiança que demonstra ter em palco.
Tenho um enorme amor por mim em palco! (Risos) É a minha situação preferida. Tudo o resto é mais difícil. Não gosto nada de ensaios. Canso-me imenso, não tenho paciência.
Confia muito na sua capacidade de improvisação. Não tem medo que lhe falhe a inspiração?
Desenrascanço, sabe? Sou o cúmulo absoluto do desenrascanço.
Ouve os seus discos?
Oiço, pois. Tenho sempre um disco meu no carro e vou variando. Talvez «Cor» (1998) e «Chorinho Feliz» (2000) sejam os que oiço regularmente. Ambos foram uma encomenda da Comissão dos Descobrimentos, para celebrar os 500 da chegada à Índia e da Descoberta do Brasil. Essa encomenda permitiu-nos, naquela altura, começar a explorar uma vertente musical que já tínhamos muita vontade de experimentar, mas que ainda não tínhamos encontrado o pretexto para o fazer.
Andaram pela Índia a recolher sons, não foi?
Foi mesmo uma aventura. Andámos 15 dias pela Índia a fazer um levantamento da música e partíamos de uma observação do quotidiano. Foi uma «viagem» quase impossível!
Como fizeram?
Absorvíamos tudo. Gravávamos, gravávamos. Em Nova Deli, ficámos num hotel incrível, da época colonial - o Imperial - que tinha um jardim maravilhoso. Ficávamos tardes à beira da piscina só a escutar. Conseguíamos ouvir a cidade inteira a fervilhar em redor! Estes momentos foram de grande inspiração.
Todas as cidades têm um universo sonoro sedutor, ou essa experiência faz parte do mapa das cidades exóticas?
Nem sempre é tão apelativo. Mas sim, todas as cidades têm sons diferentes quanto mais não seja pelas palavras. A sonoridade das palavras instala-nos logo no ambiente. Estou sempre a ouvir. Primeiro escuto o som, só depois dou atenção ao significado.
Sempre foi assim, mesmo antes de começar a cantar?
Não me lembro. A capacidade de cantar, quando a descobri, foi uma coisa que me surpreendeu tanto!
Desconhecia que tinha uma voz?
Como qualquer pessoa, cantarolava. Um dia descobri que podia cantar. Tinha uma amiga, que estudava canto clássico, e com quem tinha feito o curso de nadadora-salvadora na praia de Carcavelos. Um dia, estamos nos balneários da praia, ela começou a cantar uma música da Joan Baez, acompanhei-a e reparei que cantava tão alto como ela. Foi a primeira vez que percebi o volume da minha voz!
Quantos anos tinha?
Quando comecei mesmo a cantar? Tinha já 26 anos. Esta descoberta foi uns anos antes.
A sua mãe é de origem moçambicana. Viveram sempre em Portugal?
Sim. Mas íamos muitas vezes passar férias a Moçambique e a outros países de África. Viajávamos muito as duas. A minha mãe era uma pessoa com uma personalidade muito forte e absolutamente invulgar. Foi muito presente na minha vida, tentou sempre moldar-me ao que queria que eu fosse e isso marcou-me. Não me adaptava nada bem àquele controlo.
E o seu pai?
Era piloto de planadores, passava muito tempo nos aviões e era um grande sonhador.
Tem um «cadastro» bastante pesado em matéria de colégios: foi expulsa de alguns.
De cinco: St. Julians (o colégio inglês em Carcavelos), Bafureira, Ramalhão, Nuno Álvares, em Tomar, e Liceu de Oeiras.
Não se adaptava?
O St. Julians foi o primeiro. Estive lá entre os dez e os 13 anos. Talvez por ser filha única, estava muito habituada a estar sozinha. Andava sempre à volta das árvores a fazer as minhas histórias. Às tantas, a directora começou a embirrar comigo. Dizia que eu criava instabilidade. O colégio era recheado de miúdos loirinhos e lindos. Nessa altura, eu era muito gorda, tinha o cabelo hirsuto e usava óculos. Puseram-me logo uma alcunha: «Gungunhana». Claro que ficava muito ofendida e distribuía pancada. Aquilo marcou-me tanto que me lembro de pensar: «Vou conquistar esta gente.» Cheguei a roubar dinheiro ao meu pai para comprar Smarties e distribuir pela escola.
Como é que essa imagem, «Gungunhana», ficou marcada em si?
Com 13 anos o meu corpo mudou radicalmente. De repente, cresci imenso, deixei de ser gorda, fiquei com uma pernas grandes e magras e o meu cabelo hirsuto (que passei a esticar) ficou um grande e belo cabelo. Subitamente, para uma miúda com aquela idade, tornei-me numa mulheraça.
O patinho feio transformou-se em cisne...
Cisne, cisne talvez não. (Risos) Mas, de facto, foi um pulo tão rápido que de certa maneira reparou-me e equilibrou-me. Aí a coisa mudou. Comecei a dar muita atenção aos rapazes e a namorar imenso. Nessa altura, a minha mãe, que trabalhava o dia inteiro, pôs-me num colégio interno porque eu andava à solta, incontrolável. Ela tentava tudo à força. Isso criou-nos grandes problemas.
Dizia que ser cantora foi um acaso. Como aconteceu?
Antes disso aconteceu uma coisa muito importante que foi a descoberta do aikido. A minha mãe andava tão desesperada comigo que, quando ouviu falar do mestre Georges Stobbaert, que tinha uma escola de ioga e artes marciais em Cascais, achou que seria uma boa maneira de canalizar todo o meu «speed». E tinha razão. Eu precisava absolutamente de limpar o sistema fazendo desporto. Aquilo salvou-me a vida, estava mesmo calhadinha para o disparate.
É cinturão negro em aikido.
Treinava todos os dias. Foi uma altura maravilhosa e muito saudável da minha vida. Ocupou-me o espírito, o corpo e o coração durante anos. Ainda hoje, sempre que posso, faço estágios.
Voltando ao canto.
Quando abriram as inscrições para a escola do Hot Clube fui lá. Tinha já 26, estava sem trabalho, e ainda vivia em casa dos meus pais. Poderia ter sido aquilo ou outra coisa qualquer. Foi um acaso. Quando entrei sabia zero de música. Não lia uma nota. No Hot passava os dias a ouvir. Aprendia ouvindo. Passados três meses, o Zé Eduardo, que era lá professor, ia fazer um concerto para inaugurar um restaurante. Precisava de uma cantora e escolheu-me. Decorei seis músicas e comecei a cantar a tremer de medo. A primeira foi muito bem. Mas na segunda tive uma branca. Nada. Para não ficar calada comecei a improvisar e a coisa saiu bem. Que sensação! Que frenesim! Nessa noite nem conseguia dormir. E nessa tarde, o meu pai, todo nervoso, tinha-me levado a comprar roupa para eu ir bonita... Quando cheguei a casa, lá estava ele à minha espera e eu só lhe dizia: «Ó pai. Foi incrível! Deve ser como voar.» Lembro-me de nesse dia sentir que queria fazer aquilo até morrer. Depois perguntava ao Zé Eduardo: «E agora? Vou ter de sofrer? Para cantar como elas é preciso sofrer!» Ele já não me podia ouvir! (Risos)
Correu sempre bem?
Correu mesmo. Ser mulher, naquela altura, em que havia tão poucas no jazz, foi uma coisa que facilitou. Tive a sorte de estar no sítio certo, na altura certa.
Só sorte?
É verdade que me fartei de trabalhar. Esforço-me ao máximo. Vou a todas. Agarrei na cana de pesca que tinha e usei-a mesmo.
Acabou por traçar um caminho próprio num meio conservador como é o do jazz. Como conseguiu escapar à tentação de interpretar «standards»?
Comecei pelas coisas mais «jazzy» e depois fui distorcendo... distorcendo. A partir de certa altura foi difícil, fui muito criticada. Mas talvez por ter sido a primeira a levar isto como uma opção de vida tive muitas oportunidades. Hoje teria sido muito mais difícil.
Porquê?
Tive a sorte de ter tido tempo para aprender, evoluir e crescer. Naquela altura ainda era possível. Hoje não seria. É tudo muito rápido, muito imediato. Ou mostras logo, ou passas.
Para o público em geral continua a ser tida como uma cantora de jazz?
Sim. É o rótulo que me está mais próximo.
Como é que se definiria?
Com uma grande curiosidade pelo som e um grande amor pela improvisação. Faço uma mistura de muitas coisas e uso vários estilos. Acabo por «roubar» em todo o lado.
Quase no princípio da sua carreira foi para a Alemanha, nessa altura ainda a solo. Foi lá que se libertou do jazz convencional?
Mais uma vez, por acaso. Conheci o Carlos Bica, que estava lá, apaixonámo-nos e fui com ele. Arranjou-me um agente, levou os meus discos e consegui fazer a minha primeira «tournée» na Alemanha. Foi uma aprendizagem incrível. Nessa «tournée» conheci a Aki Takase (pianista japonesa) e durante dois anos andámos a correr os festivais. Ela ensinou-me que tudo era possível. Tudo. Era uma mulher pequena mas com uma força! Com ela aprendi a puxar ao limite as minhas cordas vocais. Entretanto nasceu o meu filho e senti que tinha de deixar o «free». Era uma maneira de cantar muito exigente. Comecei a sentir necessidade de cantar coisas mais suaves e também mais portuguesas porque precisava de estar ao pé de casa.
Foi nessa altura que começou a trabalhar com Mário Laginha?
Precisamente. A Aki e o Mário são, musicalmente, as pessoas mais importantes da minha vida. Também aqui tive muita sorte. Tive dois duos maravilhosos. Foram dois «affairs» na minha vida.
Um duo não é sempre assim?
Pode não ser. Pode apenas ser 1 + 1. Eu e o Mário fizemos oito discos juntos. Apesar de termos feitios muito diferentes acabámos por nos moldar completamente um ao outro. Essa é a força do duo.
Com o Mário Laginha teve mesmo uma relação amorosa.
Sim, fomos namorados. Era difícil não acontecer: ir por aí, mundo fora, os dois sozinhos a fazer música... Ainda por cima música! Depois tornou-se demasiado. Começou tudo a misturar-se e deixou de ser saudável. Pelo menos para mim.
Mas conseguiram manter o duo.
A custo. Nessa altura tive vontade de mandar tudo para o inferno. A persistência do Mário conseguiu dar a volta. Ainda bem.
E agora resolveu fazer este disco sem o piano do Laginha.
Por isso chamei-lhe «João». Ao princípio senti: «Ai que solidão!»
Sentia-se desamparada?
Muito. Mas depois foi bom. Sobretudo não senti a falta do piano. É um disco feito com outra concepção. Mas não deixámos de trabalhar juntos.
E os seus famosos atrasos, nunca a prejudicaram?
Muito. É das coisas que mais me tem prejudicado e das que mais me consome. A frase que mais disse ao longo da vida foi: «Desculpem-me pelo atraso.»
Nunca perdeu aviões nem falhou concertos?
Nem sei como! Faço de mim sei lá o quê e não perco aviões. Mas chego atrasada aos concertos. Estou melhor. A minha mãe também era assim. De tal maneira que, na Shell, onde trabalhava, como era excelente profissional, tinha um horário só para ela. Deve ser uma coisa africana!
Grande desculpa.
(Risos) Tenho uma relação muito estranha com o tempo. Cheguei a ir a um psicólogo de propósito para tentar perceber e resolver esta história. Ele foi muito académico, tentou organizar esquemas como atrasar o relógio. Ora! Isso já eu estava farta de fazer.
Mas é possível ser-se pontual.
Mas como!?

