Maria João

Discografia

Maria João & Mário Laginha

Tralha

Entrevista ao Clube de Fãs

Sobre o disco – O que é o Tralha?

Mário Laginha (ML) – Apesar de termos partido de uma premissa, que era pôr mais electrónica, depois isso foi-se transformando um pouco. Entre outras coisas, a ideia de Tralha, que veio da Maria João, foi também de pôr muitos sons que não forçosamente dos instrumentos convencionais. Sons da rua, disto, daquilo...
E portanto, digamos que esses foram os leit-motiv do início da concepção do disco.
E depois, o resto é o processo comum: escrever música e ver como é que a coisa avança. Pensar se fica bem assim ou de outra maneira, que é o que nós temos sempre feito.

ML – (...) é um disco que tem mais canções, com a estrutura de canção realmente, apesar de, paradoxalmente, ser um disco que eu acho que tem mais improvisos, mais solos do que a maioria dos outros. Por exemplo, acho que há seis solos de piano, há solos de contrabaixo, de percussão...

ML – (...) a sonoridade não tem nada a ver com a que as pessoas associam ao jazz convencional. Acho que muitas são canções mais próximas de um formato... não quero dizer pop porque pop tem uma carga... a pessoa ouve uma canção, até tem alguma electrónica, mas depois, no momento a seguir, aparece um universo de solo e depois volta àquele outro universo. E nesse aspecto até nos achámos um bocado num terreno não muito explorado, pelo menos por nós. Porque às vezes está-se a ouvir a canção, mas logo a seguir começa a haver um solo que remete mais para um universo jazz, e depois regressa à canção. É até meio desconcertante, o que eu acho graça.

Maria João (MJ) – (...)
É boa música
Tem boas letras
Está bem tocado e cantado
Está o melhor que nós podemos fazer agora. Se calhar daqui a meio ano conseguimos fazer outras coisas. Conseguimos fazer estas melhor.
É um óptimo disco para ouvires em casa, no carro, quando estás a namorar, quando estás a lavar louça, quando estás a levar o filho à escola.
Tem uma capa bestial. A folha de dentro também deu um trabalhão enorme à gráfica que fez isto.
E acho que as pessoas têm que comprar música e não roubar música, que é o que eu acho que se faz, quando se fazem downloads.

ML – Eu acho que quem comprar este disco tem a certeza que, pelo menos em Portugal, e mesmo fora, ninguém faz música igual a esta. Não quero dizer que esta é melhor, só que não é igual. As pessoas, se comprarem este disco, ouvem uma música que nenhum outro disco lhes pode oferecer. Já é alguma coisa.

MJ – Pois, não é melhor nem pior. Não é igual! O que, nos dias que correm, já é muito bom (risos)

Algumas Tralhas...

ML – Escadas rolantes, objectos a caírem no chão, gritos de pessoas, pessoas a fazer kendo, e alguns são sons transformados, quer dizer, partimos de sons acústicos que se transformam electronicamente, e também há essa tralha. É uma mistura.

Tema A Tema

O que eles disseram sobre “Parrots and Lions”

Maria João (MJ) – Eu fiz a letra. Estava entusiasmadíssima, passei-a por telefone ao Mário, e o Mário protestou muito e depois fez uma música de ir às lágrimas. Amo aquela música. É das músicas que eu mais gosto. Ficou maravilhoso. Depois, andávamos com a história dos sons – que foi ideia minha! – e, um dia estávamos – onde é que estávamos? –, num sítio qualquer em que passámos à noite na véspera de um concerto.

Mário Laginha (ML) – Nuremberg.

MJ – E ouvimos um (faz um som) e o Alex (Frazão) disse: “isto é música ao vivo”.

ML – “Está alguém ali a tocar percussões”.

MJ – Fomos à procura e era uma escada rolante! (faz mais sons). E ficou, o Alex voltou lá e gravou e depois resolvemos metê-la mesmo.

ML – E depois eu disse assim: era giro abrirmos o disco com esta escada rolante!

MJ – Não, desculpa, isso disse eu!

ML – Não, por acaso até fui eu!

MJ – Bem, tu és aldrabão! E eu não disse?

ML – Tu concordaste!

MJ – Eu disse que era fantástico abrir com isto...

ML – Exacto, tu estavas no teu quarto e disseste isso. Ninguém ouviu, mas disseste isso muito antes de qualquer pessoa. (risos).

(...)

ML – Eu achava que o “Parrots and Lions”, ela devia cantar grave, e foi uma guerra para que ela cantasse grave.

MJ – Não é verdade.

ML – Bem, tu apagas o que não é conveniente.

MJ – Não foi relativamente ao “Parrots and Lions”.

ML – Foi sim. Não querias cantar mais grave. Até que houve um dia em que vieste ter comigo e disseste “eh pá, obrigada por teres insistido”. (risos)

O que eles disseram sobre o tema “Tralha”

MJ –É uma impressão digital “by Mário Laginha”.

ML – Não, não acho. É nós, do nosso universo.

MJ – Sim, é nós. O tema também tem assim umas tralhas.

ML – Não tem letra.

O que eles disseram sobre “Blue Horse”

Mário Laginha (ML) – Ela fez a letra, deu-me a mim a dizer para eu fazer um tema tipo “standard”. Eu fiz o tema e ela começou por dizer “não é bem isto”.

Maria João (MJ) – Já é antiga essa letra. É uma letra que fala de cavalos, nuvens, o costume... e eu achei, ao princípio, que era uma música muito pesada. Mas depois ele disse “então espera, vais ver”. E agora eu acho que está mesmo bonita. Eu adoro aquela música! Adoro, adoro! (...) eu posso estar muito zangada com o Mário, mas ouço a música e é uma coisa... eu perdoo tudo ao Mário, aliás a toda a gente!

ML – Oh, então se é a toda a gente não tem a mesma graça! (risos)

MJ – Ok, não é a toda a gente... eh pá, a sério fico logo cheia de saudades tuas... E acho que isto é um privilégio, ter esta “coisa” com uma pessoa. Não achas? Isto é demais, uma pessoa começa a ouvir a música que fez com outra pessoa e dá uma empatia... mais que empatia.

ML – E já fizemos muita música juntos!

MJ – (...) É isto, ouço as músicas e fico logo cheia de coisas boas, fico logo muito melhor pessoa! Às vezes tenho nuvens pretas à volta da cabeça e tiro as nuvens, fico cheia de amor, cheia de generosidade!

[Nota: O tema Blue Horse foi estreado ao vivo no Casino Estoril, no passado dia 2 de Setembro. Desde então têm-no tocado em quase todos os concertos.]

O que eles disseram sobre “Gosto”

ML – Ela fez a letra, passou a batata quente aqui para mim. Foi difícil fazer, descobrir a música. Se bem que lá na Universal querem que seja essa o single. Não acho, é meio estranho, até porque é grande, tem solo pelo meio.

MJ – Teria que se tirar o solo.

ML – Mas se se tirar o solo são duas partes iguais. É esquisito!

MJ – Eu não concordo que seja essa a música. Não concordo.

O que eles disseram sobre “My Skin”

ML – É a mesma letra do Nhlonge Yamina, só que em inglês, e a música é outra. Quer dizer, sem trabalho nenhum aqui para... ‘tás a perceber. (risos)

MJ – Sem trabalho nenhum! Então fiz a letra. Já estava! A letra estava em xangana e é uma letra bonita, porreira.

ML – Vocês já viram que vamos no 4º tema em que veio a letra e eu faço a música! (risos).

[Nota: O tema “Nhlonge Yamina” faz parte do disco “Cor”]

O que eles disseram sobre “Mãos na Parede”

ML – É a única versão, que tem mais alguma electrónica, alguns sons. Por acaso ficou porreira!

[Nota: A primeira versão do tema “Mãos na Parede” foi escrita para o disco de homenagem a Carlos Paredes intitulado “Movimentos Perpétuos” e no qual participaram diversos músicos.
Maria João e Mário Laginha interpretam-no regularmente ao vivo, principalmente em concertos em duo, pois trata-se de uma música só para piano e voz.]

O que eles disseram sobre “Cair do Céu”

Mário Laginha (ML) - Eu fiz a música e ela fez a letra; na altura das misturas, está claro! Não foi na gravação, foi um mês depois! (risos)

Maria João (MJ) – Quer dizer, isto tudo dito assim... o Sr. Mário Laginha deu-me uma cassetezinha no início da semana, íamos para estúdio no sábado e na sexta-feira imediatamente anterior, finalmente, ele deu-me uma cassete com as músicas todas para decorar!

ML – Não. Isso não foi bem assim.

MJ – Eu fui a última pessoa a receber as músicas. Não fui? Não fui?

ML – a receber as últimas músicas. Já tinhas...

MJ – Tinha três músicas! Naquele concerto em Castelo Branco foi a primeira vez que ele me começou a tocar o “Cair do Céu”... não foi Castelo Branco... foi quando fiquei sem o carro... aí é que me começaste a dizer que estava o tema alinhavado, seja dita a verdade. Fui a última pessoa a receber...

ML – Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu... (risos)

(...)

MJ – Então, o Cair do Céu fiz a letra e depois era preciso traduzir. Pedi a um senhor da Associação de Moçambique ou Casa de Moçambique - não sei como se chama - e o senhor foi amoroso e fez.

O que eles disseram sobre “From a Wide Open Window”

ML – Ela fez a letra e passou-ma.

MJ – Por telefone, esta também foi via telefone.

O que eles disseram sobre “Torrente”

Maria João (MJ) – Foi a tal que me deu água pela barba, por assim dizer.

Mário Laginha (ML) – Sim, foi a tal que eu tinha dado a música 1 mês antes...

MJ – Não, não foi (risos)

ML –... e que depois fez a letra nas misturas.

MJ – Ia fazendo enquanto estava a gravar e deu-me um trabalhão! Foi mesmo muito trabalhoso, não desejo fazer aquilo outra vez.

ML – Tudo o que dá trabalho ela não deseja fazer outra vez! É uma característica...

MJ – Não, não é isso. Não é verdade. É complicado, tu não compreendes. Tu teres a melodia e tens que juntar coisas que façam sentido e que tenham alguma poesia. (...) Mas agora estou muito orgulhosa daquela letrinha. Tu não?

ML – Muito orgulhoso.

MJ – Gostas?

ML – Gosto!

O que eles disseram sobre “Pequenininha”

ML –... já tinha sido gravada. Ela fez a letra e... eu depois fiz a música.

O que eles disseram sobre “Pés no Chão”

Mário Laginha (ML) – É uma versão noutra tonalidade, com outro arranjo e bastante mais lenta da parte rápida do Mãos na Parede. E eu disse “era engraçado que tivesse uma letra, porque é tudo compartimentado”.

Maria João (MJ) – Estás a saltar uma coisa importantíssima. Estás a saltar que este tema não existia. “Pés no Chão” não existia. Fui eu, “je”, tenho um grande orgulho da minha ideia “isto tem que se tocar mais lento, partir e tal”. A ideia daquele tema foi toda minha.

ML – Sim, sim, de fazer a coisa compartimentada é dela.

MJ – Sim, e juntar aquilo tudo. Juntar tralhas. E pôr muitas coisas e atirar com coisas ao chão. E depois era giro fazer uma letra e eu fiz!

ML – E então ela fez uma letra, que cada vez que cantava a letra era outra. Nunca foi a mesma as vezes todas que cantou! (risos). Tão a ver a força que tinha a estrutura da letra! (risos).

MJ – Mas ficou giro. Eu acho que é o tema mais divertido, eu gosto imenso. (...) Tá lá escrita. (risos)

ML – E ela vai cantar sempre igual, está escrita!

(Maria João canta um bocadinho)

MJ – Está tudo escrito. Olha só o trabalho que me deu! Mas está muito gira, não está?

ML – Está. Principalmente a ideia que ela transmite. Gosto da história (risos)

Sobre os músicos que participaram no disco...

“É uma malta que só de falar disso dá saudade!” (ML)

Mário Laginha (ML) – Pois é toda uma elite! São músicos incríveis. E acho que não é por acaso que voltaram a ser convidados para este disco. Na verdade, são os mesmo que tocaram no “Undercovers”, só que, agora, numa conceito de música original.

Helge Norbakken

ML – Na percussão o Helge Norbakken que é absolutamente único, e que traz sempre um cunho um bocado único à música.

Alexandre Frazão

ML – (...) é um artista de excepção e que também é um bocado insubstituível. O ideal para nós era que tivéssemos os dois sempre. O ideal era sermos milionários e não somos, só para podermos pôr isto tudo tal como queremos.

Yuri Daniel

ML – (...) é aquele músico discreto, mas que faz sempre um trabalho de excelência. Ele tocou muito bem e uma pessoa às vezes só repara quando chega ao fim “Eh pá isto está tão bem!”.

Maria João (MJ) – Até te surpreendeu a ti, não foi?

ML – Exactamente, exactamente.

MJ – Está lá, na dele....

ML – E uma pessoa vai ver e está tão bem!

MJ – Está bem, está inspirado, ele estuda as coisas, interessa-se.

Mário Delgado

MJ – O Mário Delgado é um cromo! Um cromo maravilhoso! É um cromo único!

ML – Daqueles que ninguém tem pr’a troca!

MJ – Como músico e como pessoa ele é óptimo, óptimo!

ML – E traz sempre também ideias.

Miguel Ferreira

ML – (...) é também não só um músico fabuloso, mas também uma pessoa que tem ideias e que está lá... uma pessoa sente que a coisa está sempre a borbulhar com ele.

MJ – Noutro universo que é uma coisa mais pop, mais rock. Traz coisas interessantes.

ML – Coisas que nós não sabemos até.

Nelson Carvalho

ML – O Nelson já é mesmo da nossa equipa. Às vezes, de uma maneira geral, ouve antes de nós, ou identifica os problemas que tem o som. Já tocamos com ele há uns 5 anos.

MJ – É bonito dizer isto. Já tocamos com ele, ele é outro elemento.

Maria João (MJ) – (...) a nossa preocupação foi fazer uma capa chamativa, que tivesse...

Mário Laginha (ML) – Tu gostas de pôr as caras na capa.

MJ – Eu acho que é importante até porque é um meio de promoção e também estou a pensar fora de Portugal. “Lá estão as caras daqueles dois” e se fores ver na maior parte dos discos aparecem as caras dos músicos.

ML – Enfim, eu, pessoalmente, acho que já estava na hora de não pormos a cara.

MJ – Não, mas agora também está diferente. Está mais pequenino e o visual também é diferente. Está uma fotografia mais pequenina, não é tão presente como noutros discos.

Expectativas...

Maria João (MJ) – Eu não tenho nenhumas expectativas em relação a este disco, quer dizer... antes eu tive sempre tanta expectativa em relação aos outros discos. Achei sempre que iam estourar, que iam acontecer, sobretudo este último, o “Undercovers” que achei que ia ser bestial e depois não aconteceu lá fora. Cá sempre acontece mais, mas lá fora foi um bocadinho... não sei o que aconteceu, ficou entre os outros discos e acabou por não ter o destaque que nós gostaríamos que tivesse. De maneira que, eu, para este disco, estou completamente relax. Vou fazer tudo para que aconteçam as coisas mas não vou estar ansiosa, à espera que vá rebentar. Vamos ver...

Mário Laginha (ML) – Acho que o disco é porreiríssimo, acho que tem potencial, mas os últimos anos ensinaram-nos a ter calma quanto a expectativas.

MJ - Eu estou desejosa de começar a cantar as coisas novas. Já andamos a rodar o outro material há tanto tempo. Vamos ver o que acontece. E não é só o que acontece connosco, é o que acontece com a indústria discográfica em geral. Está tudo bera, ruim, as pessoas não compram os discos, copiam. E isto é mesmo um problema muito grave, que eu não faço ideia como se pode dar a volta. Até agora não se têm visto grandes formas de dar a volta. Eh pá, vamos ver, vamos ver!

Ao vivo...

Mário Laginha (ML) – Bem, não vamos para o palco com uma data de tralhas...

Maria João (MJ) – Não sei...

ML – Se calhar ainda se põem algumas...

MJ – Ainda não pensámos bem em como fazer coisas. É pouco prático andar com um projecto assim e levá-lo, por exemplo, para fora de Portugal. Hoje em dia tem que se viajar leve.

MJ – O Mário vai estar a tocar outros instrumentos. A disparar, como ele diz (risos). “Eu posso disparar, de onde eu estou posso disparar”. Fica em aberto o que é que ele quer dizer com “posso disparar” (risos). “Eu posso disparar, o Nelson também pode disparar”. Portanto, as coisas vão ser disparadas, não sei.

MJ – Gostava de experimentar fazer um concerto com os temas todos do disco. Deve ser um sufoco, não trazer a família, novos amigos sem trazer a família. Gostava de fazer isso, mas depois noutros países temos de misturar outras coisas. Já estou ansiosa. É um bocado complicado. Há grupos que fazem paragens, deixam de tocar durante um tempo, eu era incapaz. Estar um ano sem tocar, poupem-me, por favor! Um ano sem cantar, nem pensar!